Em 27 de dezembro de 1964, o padre Francesco Spoto faleceu em Biringi (Congo) em consequência dos maus-tratos sofridos quinze dias antes.
Este artigo pretende ser não apenas uma memória comemorativa, mas também uma reflexão teológica e espiritual sobre um testemunho que tem muito a dizer ao nosso tempo. Um testemunho que pode ser resumido em uma imagem simples, mas profunda: os pequenos passos silenciosos de um Servo dos Pobres.
Não passos gigantes. Não passos ruidosos. Não passos protagonistas. Mas pequenos passos. Silenciosos. Fiéis. Diários. Passos que acompanham.
Passos que servem. Passos que amam.
E esses passos, interrompidos violentamente em Biringi em 27 de dezembro de 1964, continuam até hoje. Continuam na memória da Igreja. Continuam na vida daqueles que foram acompanhados. Continuam na intercessão do céu.
Quem era Francesco Spoto: uma vida doada
Francesco Spoto nasceu em Raffadali, na província de Agrigento, em 8 de julho de 1924, em uma família modesta, mas profundamente cristã. A Sicília daqueles anos era uma terra de contrastes: pobreza e fé, beleza e sofrimento, tradição e mudança.
Com apenas doze anos, Francesco ingressou na Congregação dos Servos dos Pobres, fundada pelo beato Giacomo Cusmano. Foi uma escolha precoce, como costumava acontecer naquela época, mas uma escolha que já revelava um chamado profundo. Os Servos dos Pobres são uma congregação especial: não apenas contemplação, não apenas ação, mas serviço concreto aos mais pobres, aos últimos, aos descartados.
Francisco cresce nessa espiritualidade. Ele estuda. Ele se forma. Ele amadurece. E, em 22 de julho de 1951, é ordenado sacerdote. Ele tem vinte e sete anos. São os anos do pós-guerra, da reconstrução, da esperança, mas também do esforço. A Itália sai destruída do conflito mundial. A Sicília ainda carrega as feridas da pobreza endêmica.
O padre Spoto dedica-se ao ensino, à formação dos jovens, ao acompanhamento vocacional, ao serviço na Congregação. Não procura cargos de prestígio. Não ambiciona carreiras eclesiásticas. Serve. Simplesmente. Fielmente. Na discrição.
Mas no verão de 1959 acontece algo inesperado: com apenas trinta e cinco anos, ele é eleito Superior Geral da Congregação dos Servos dos Pobres. Ele é jovem. É tímido. Não tem a aparência de um líder carismático. Mas é escolhido. Por quê? Talvez justamente por isso: porque não busca o poder. Porque não gosta de protagonismo. Porque sabe servir.
E por quatro anos ele guiará a Congregação. Não do alto de um escritório. Não à distância. Mas caminhando. Visitando as comunidades. Ouvindo os confrades. Acompanhando os jovens. Com pequenos passos. Silenciosos. Fiéis.
P. Giovanni Avena: “Senti seus passos ao lado dos meus”
Para compreender verdadeiramente quem era Padre Spoto, devemos ouvir quem o conheceu. E, em particular, devemos ouvir o testemunho extraordinário do padre Giovanni Avena, escrito em 1998, trinta e quatro anos após o martírio.
O padre Avena tinha quinze anos quando conheceu o padre Spoto pela primeira vez. E esse jovem estudante do ensino médio perguntou-lhe, com a audácia típica da adolescência, se poderia comprar livros para lhe permitir ganhar uma viagem a Lourdes.
Spoto poderia ter dispensado o rapaz com uma piada. Poderia ter se sentido incomodado. Poderia ter dito: “Não tenho tempo para essas bobagens”.
Mas não o fez. Padre Avena conta: “Ele não se surpreendeu, nem se sentiu incomodado. Pegou boa parte deles e me garantiu que os pagaria quando eu terminasse de vender a outra metade”.
Um gesto pequeno. Aparentemente insignificante. Mas decisivo. Porque aquele rapaz de quinze anos, acolhido dessa forma, decidiu ficar. Continuar. Tornar-se padre. E hoje, mais de sessenta anos depois, pode testemunhar: “Senti seus passos ao lado dos meus”.
Esta frase é o cerne de tudo. “Senti seus passos ao lado dos meus”. Não: “Segui seus passos”. Não: “Ele me guiou”. Mas: “Senti seus passos ao lado dos meus”.
Ao lado. Não à frente. Não atrás. Mas ao lado. Presença. Companheirismo. Acompanhamento.
E padre Avena continua, descrevendo aqueles anos cruciais entre a adolescência e a juventude, quando tudo parece possível e tudo parece impossível: “Eram os anos da última etapa do caminho que me levava à ordenação. Os anos do grande entusiasmo pelo objetivo agora próximo, mas também os anos – meus vinte anos! – dos grandes pensamentos de amor e renúncia, das vitórias e derrotas, dos repensamentos e das grandes paixões ideais, dos projetos de futuro e das inquietações do presente, das dúvidas, das expectativas, das decepções.
Os anos em que, paradoxalmente, você se encontra com a vida e acredita estar se deparando com Deus”.
E, naqueles anos cruciais, “o padre Spoto esteve ao meu lado com atenção e discrição, com ternura e rigor, com serenidade. Ele não agia como um “pai”, um superior ou um conselheiro zeloso. Era apenas ele, palavra e silêncio, oração e espera, carne e sangue, lágrimas e alegria, suor da semeadura e alegria da colheita”.
“Era apenas ele”. Não desempenhava um papel. Não usava uma máscara. Não fingia. Era simplesmente ele mesmo. E essa autenticidade era paternidade. Era autoridade. Era educação.
Mas o que significa concretamente “pequenos passos silenciosos”? Devemos analisar os três elementos separadamente para depois os recompor em síntese.
OS PASSOS: o acompanhamento que caminha ao lado
O passo é movimento. É caminhada. É avançar. Mas é também ritmo. É medida. É presença que se faz sentir.
Antonio Machado, o grande poeta espanhol, escreveu versos imortais: “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar” – “Viajante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar”. Não existe um caminho já traçado. Não há um percurso predefinido. O caminho se cria caminhando. Passo após passo.
E padre Spoto caminhava. Não sozinho. Mas ao lado. Essa é a chave: caminhar ao lado.
Quem caminha à frente comanda. Decide o percurso. Imõe o ritmo. E os outros têm de seguir, têm de se adaptar, têm de obedecer.
Quem caminha atrás depende totalmente. Nunca decide. Nunca escolhe. Nunca arrisca. Espera que o outro lhe diga o que fazer.
Mas quem caminha ao lado acompanha. Não comanda. Não depende. Mas está presente. Ao passo do outro. Ao ritmo do outro. Respeitando os tempos do outro.
Este era o padre Spoto. O padre Avena conta um episódio revelador: quando voltou de Lourdes, feliz por ter servido os padres doentes, o padre Spoto “parecia indiferente ao relato da viagem. Ele me perguntou não quantos padres doentes eu tinha servido, mas se, com eles, em Lourdes, eu tinha aprendido a rezar”.
Não: “ O que você fez?”. Não: “Quantos você serviu?”. Mas: “Você aprendeu a rezar? Você encontrou Deus? Você captou o essencial?”.
Uma pergunta que desconcerta. Que vai ao coração. Que não se contenta com a aparência. Uma pergunta que revela: aqui está alguém que realmente acompanha. Que não se detém na superfície. Que busca o ser, não apenas o fazer.
A PEQUENESSE: a escolha da humildade
Mas por que os passos devem ser “pequenos”? Por que não grandes? Por que não rápidos? Por que não imponentes?
O padre Avena nos diz isso com uma frase sucinta, mas muito profunda: “Sua ‘grande’ humanidade? A de se sentir pequeno aos olhos de Deus, frágil, manso e fraterno aos olhos dos homens”.
Pequeno aos olhos de Deus. Não por desvalorização. Não por desprezo por si mesmo. Mas pela verdade. Porque diante de Deus somos todos pequenos. Todos criaturas. Todos dependentes.
E reconhecer essa pequenez não é humilhação. É libertação. Porque quando você é pequeno, não precisa fingir ser grande. Não precisa carregar pesos impossíveis. Não precisa salvar o mundo sozinho.
Você é pequeno. E Deus é grande. E isso basta.
Mas o padre Spoto era pequeno também diante dos homens. Não por necessidade. Mas por escolha. O episódio mais significativo é sempre contado pelo padre Avena: “Quando lhe comunicamos que tínhamos conhecido um padre jesuíta, professor do Instituto Bíblico, que tinha aceitado vir semanalmente ao colégio Cusmano para dar conferências e ser nosso diretor espiritual, ele aproveitou a primeira oportunidade de uma viagem a Roma para encontrá-lo e ouvi-lo. Ele quis participar com a comunidade da palestra, mas nos pediu para apresentá-lo como um convidado de passagem e não como Superior Geral”.
Superior Geral. Ele poderia se apresentar como tal. Poderia sentar-se no lugar de honra. Mas pediu para ser apresentado como “convidado de passagem”.
“Muitos anos depois, revelei esse episódio ao padre Martini, que entretanto se tornara bispo e cardeal.
Ele ficou admirado.
O SILÊNCIO: a eloquência da presença
E chegamos ao terceiro elemento: o silêncio.
Porque os passos não são apenas pequenos. São também silenciosos.
Mas atenção: não o silêncio da ausência. Não o silêncio da indiferença. Não o silêncio do medo. Mas o silêncio da presença atenta. O silêncio da contemplação. O silêncio da custódia.
O padre Avena descreve o padre Spoto como “palavra e silêncio”. Não apenas palavra. Não apenas silêncio. Mas ambos. Em equilíbrio. Em harmonia.
“Os momentos explícitos e diretos de ‘ensino’ por parte do padre Spoto eram quase inexistentes. Um pouco o papel institucional, um pouco a sua timidez natural faziam com que ele parecesse sério e austero, mas nada paternalista ou autoritário. O que o tornava autoritário, se é que alguma coisa, era a franqueza linear de seus raciocínios e a maneira direta e decidida com que enfrentava situações da vida cotidiana ou de nível existencial. Daí certos seus modos rudes e avaros de palavras, ao limite do indiferente”.
Rude. Avaro de palavras. Quase indiferente. Assim ele podia parecer. À primeira vista.
Mas: “Após o inevitável desconcerto inicial, era impossível não perceber naquela aspereza o esforço suportado da timidez, que escondia e revelava ao mesmo tempo uma personalidade suave e serena, cuja reserva era simplesmente a guarda zelosa de sentimentos grandes e profundos, de amizades fortes e convictas”.
Eis a verdade. A aspereza escondia ternura. A reserva guardava profundidade. O silêncio protegia grandes sentimentos.
Como um tesouro em um vaso de barro. Como uma pérola em uma ostra áspera. Como ouro escondido na rocha.
O padre Spoto guardava. No silêncio. No esconderijo. Na fidelidade. Como Maria, que “guardava todas essas coisas em seu coração”.
Os anos do Concílio: quando os sonhos se tornam realidade
Mas o padre Spoto não era apenas um homem de silêncio. Era também um homem de sonhos. Sonhos teológicos. Sonhos proféticos. Sonhos que vêm de Deus.
Os anos 60 foram anos de grande agitação. O Concílio Vaticano II estava abrindo janelas. Estava deixando entrar ar fresco. Estava mudando a Igreja.
E o padre Spoto vivia tudo isso com uma intensidade incrível. O padre Avena conta: “Os primeiros anos da década de 1960 foram anos de agitação conciliar. O padre Spoto vinha frequentemente a Roma por motivos institucionais, mas não escondia um motivo que talvez lhe interessasse mais: passar dias inteiros e longas noites conversando conosco, estudantes de teologia do colégio Cusmano”.
Longas noites de conversa. Com jovens estudantes. Falando sobre o Concílio. Sobre os novos horizontes. Sobre as possibilidades que se abriam.
“Uma noite, conversamos longamente sobre os acontecimentos conciliares e os novos horizontes para os quais a Igreja começava a ser impulsionada. Ele me confessou que se sentia pessoalmente abalado pela ruptura do evento do Concílio. Senti em suas palavras as vibrações de alguém que havia sonhado e agora começava a ver na realidade alguns de seus sonhos ou intuições”. Ele havia sonhado. Durante anos. Talvez durante décadas. Horizontes mais amplos. Teologia mais profunda. Uma Igreja mais aberta. “Diante do meu espanto, ele tentou me fazer entender o que sentia ao ver se dissolver e se dissipar dentro de si a manta cinzenta da teologia manualística, de seus anos de estudos, além da qual ele não tinha podido viver nada além do sonho, da esperança de horizontes mais amplos e próximos e do desejo ardente de superar a mortificação não resignada da inteligência e do seu amor inteligente pela Igreja”.
Manto cinzento. Mortificação da inteligência. Horizontes estreitos. Este tinha sido o seu percurso formativo.
Mas ele não se tinha resignado. Tinha sonhado. E esse sonho tinha-o mantido vivo. Tinha-o mantido aberto. Tinha-o salvado da aridez.
E agora, com o Concílio, esse sonho tornava-se realidade. E o padre Spoto alimentava-se dele. Avidamente.
“Muito felizes eram os momentos que ele me convidava a passar nas livrarias da via Conciliazione. Ele comprava, para mim e para ele, o melhor de Congar, Rahner, De Lubac, Chenu, Daniélou: todos teólogos censurados antes do Vaticano II e depois reabilitados e nomeados por João XXIII e Paulo VI peritos ou consultores conciliares”.
Os grandes teólogos que estavam renovando a Igreja. E padre Spoto os lia. Ele os estudava. Ele os amava.
Porque sonhar não é permanecer na abstração. É nutrir-se. É estudar. É crescer.
4 de agosto de 1964: o último encontro, a última palavra
E chegamos ao momento decisivo. Verão de 1964. O padre Spoto deve partir para o Congo, para a missão de Biringi. Há problemas na comunidade. Há tensões políticas crescentes. A situação é incerta, potencialmente perigosa.
O padre Avena está em Milão. E recebe um telefonema: o padre Spoto quer vê-lo. Urgentemente. No aeroporto de Fiumicino.
“Na tarde de 4 de agosto, um confrade me avisou que o padre Spoto já estava em Roma e queria me encontrar. Liguei para ele na Perseverança. Ele me pediu para voltar imediatamente e esperá-lo no aeroporto de Fiumicino, de onde embarcaria por volta das 23h daquele mesmo dia para o Congo”.
Um último encontro. Antes da partida.
“Na pressa do telefone, não tínhamos combinado um ponto de encontro. Foi ele quem me viu primeiro e me chamou em voz alta. Tentei em vão identificar a silhueta de um padre entre a multidão densa e colorida de um aeroporto em agosto. Senti alguém me segurar pelo braço: era ele, vestido à civil, um pouco desajeitado, mas radiante”.
À paisana. Porque estava indo para uma situação difícil. “Um pouco desajeitado, mas radiante”. Desajeitado porque não estava acostumado. Mas radiante porque estava indo. Estava respondendo ao chamado.
“Ele me abraçou com uma ternura que eu nunca tinha sentido nele”.
Uma ternura nunca sentida. Por quê? Porque sabia que poderia ser o último abraço? Não sabemos. Mas aquele gesto permanece.
E então a conversa: “Perguntei-lhe imediatamente sobre a duração de sua visita a Biringi para decidir com ele a data da minha ordenação, agora iminente. Ele me pegou pelo braço e sorriu, com o ar de quem quer se desculpar antecipadamente por uma notícia desagradável.
“Prepare-se para a ordenação – disse-me –, combine a data com o vigário geral, mas não leve em conta a data do meu retorno. Não sei se estarei lá, nem quando”».
Não sei se estarei presente, nem quando. Palavras pesadas. Palavras que dizem: posso não voltar.
“Ele evitou perceber minha decepção e logo me falou sobre Biringi. ‘Havia problemas sérios na comunidade – ele me disse – e algumas nuvens começavam a aparecer no horizonte político do Congo’. Por isso, ele não podia planejar nada além de uma permanência sine die”.
Problemas na comunidade. Nuvens no horizonte político. Permanência sem prazo.
“Percebi em seu rosto uma tensão extrema, em seus gestos e palavras o esforço inútil para dissimulá-la”.
Tensão extrema. Ele estava com medo. Estava preocupado. Mas foi. Porque era preciso ir.
E então a última recomendação. A última mensagem. O último testamento: “Desejei-lhe boa viagem e boa missão. Quase forçado pelos meus votos, ele também quis me dizer algo de bom. Lembrou-me que a ordenação seria apenas uma etapa na história da minha vida e da minha vocação. Repetiu-me com tom seco e sem retórica a sua ideia de futuro que outras vezes me tinha manifestado com algum tom de poesia e emoção: “
Nunca deixe de sonhar e de realizar o sonho de Deus para você”».
«Nunca deixe de sonhar e de realizar o sonho de Deus para você».
Esta é a herança. Este é o testamento. Estas são as palavras que o padre Spoto nos deixa.
Não: «Lembre-se de mim». Não: «Reze por mim». Mas: «Nunca deixe de sonhar».
E depois a despedida: “Ele não esperou que eu dissesse algo, uma palavra, uma reação, um compromisso… Ele se despediu me abraçando. Fez o mesmo com os outros que tinham vindo acompanhá-lo e se dirigiu lentamente e relaxado para a saída de embarque, como se fosse uma viagem curta de rotina. Não se virou para a saudação ritual antes de desaparecer além do balcão de controle”.
Não se virou.
Não procurou um último olhar. Não procurou uma última emoção. Seguiu em frente. Em direção a Biringi. Em direção à missão. Em direção ao martírio.
E não se virou.
Em 27 de dezembro de 1964, os passos pararam.
O Congo estava em caos. Após a independência da Bélgica (1960), o país mergulhou em uma sangrenta guerra civil. Os rebeldes Simba controlavam vastos territórios. E consideravam os missionários ocidentais como inimigos. A missão de Biringi ficava em uma zona particularmente instável. O padre Spoto chegou em agosto de 1964 e encontrou a situação que temia. Mas ele ficou. Tentou mediar. Tentou pacificar. Tentou manter a comunidade unida, mas em 27 de dezembro de 1964, o padre Spoto morreu após ter sido maltratado quinze dias antes por dois Simba que lhe quebraram o tórax com a coronha de uma espingarda. Biringi naquele dia tornou-se um dia de morte.
O padre Spoto tinha quarenta anos. Superior geral. Tinha atravessado o oceano para estar ali. Para acompanhar. Para servir. Para amar.
E ali, naquela missão perdida no coração da África, seus passos foram interrompidos. Violentamente. Cruelmente.
Mas o padre Avena escreve algo profundo: “Ele não sonhou com o martírio. Aceitou-o com a humilde consciência do sofrimento cotidiano quando, hesitante, mas generoso, assumiu o governo da congregação. Biringi tornou sangrento em sua carne aquele martírio incruento, mas não menos penetrante”.
O martírio não começa em Biringi. Começa antes. Muito antes. No sofrimento cotidiano. No esforço de governar. Na solidão da responsabilidade. Na tenacidade do serviço.
Biringi é apenas a realização. O selamento. A transformação do martírio incruento em martírio cruento.
O legado: os passos que continuam
Mas os passos do padre Spoto não pararam. Não podiam parar.
O padre Avena, cinquenta e quatro anos depois daquela noite no aeroporto de Fiumicino, ainda pode escrever: “Vivi (e ainda vivo) a sua companhia, senti os seus passos ao lado dos meus”.
Ainda vivo. Presente do indicativo. Não passado.
Não é uma lembrança nostálgica. Mas uma presença real. Uma companhia viva. Passos que continuam.
Porque os passos verdadeiros, os passos que acompanham, os passos que amam, os passos que servem, não podem ser detidos pela morte. Eles continuam. No coração de quem foi acompanhado. Na vida de quem recebeu seu amor. Na memória viva da congregação. No testemunho da Igreja.
O servo de Deus Francesco Spoto foi beatificado em 21 de abril de 2007 na Catedral de Palermo.
A Igreja disse oficialmente: aqueles passos eram santos. Aqueles passos eram evangélicos. Aqueles passos eram cristãos.
E agora brilham na glória de Deus. Agora caminham na Jerusalém celestial. Mas continuam também aqui. Continuam a acompanhar. Continuam a inspirar. Continuam a chamar.
O chamado para hoje: caminhar com pequenos passos silenciosos
E agora a pergunta se dirige a nós. Sessenta e um anos após o martírio, o que nos diz o testemunho do padre Spoto?
Nos diz que a santidade é possível. Não apenas para alguns poucos eleitos. Não apenas para heróis extraordinários. Mas para todos. Para você. Para mim. Para quem quer que escolha caminhar com pequenos passos silenciosos.
Acompanhar quem está sozinho
O primeiro chamado é: acompanhar. Em nosso mundo de solidão crescente, de isolamento digital, de fragmentação social, acompanhar é uma revolução.
Não estou pedindo que você resolva os problemas dos outros. Só estou pedindo: você pode caminhar ao lado deles? Uma hora por semana. Um telefonema por dia. Uma visita por mês. Passos pequenos. Mas decisivos.
Ao seu redor há jovens que buscam o caminho. Idosos esquecidos. Doentes abandonados. Estrangeiros sem pátria. Você pode caminhar com eles? Não à frente. Não atrás. Mas ao lado?
Escolher a pequenez
O segundo chamado é: escolher a pequenez. Em um mundo obcecado pela visibilidade, pelo sucesso, pelo protagonismo, a pequenez é profecia.
Quando fizer uma boa ação, não a fotografe para o Instagram. Apenas faça. Em silêncio. Em segredo.
Quando servir, não busque reconhecimento. Apenas sirva. Porque o serviço é sua própria recompensa.
Quando tiver um papel, use-o para servir, não para dominar. Para acompanhar, não para comandar.
Guarde o silêncio
O terceiro chamado é: guardar o silêncio. Não o silêncio vazio, mas o silêncio cheio. O silêncio que escuta. O silêncio que acolhe. O silêncio que guarda.
Aprenda a escutar. De verdade. Sem interromper. Sem julgar. Sem dar soluções imediatas.
Aprenda a calar. Quando alguém lhe confia algo, guarde-o. Não divulgue. Não conte. Guarde-o como um tesouro.
Aprenda a contemplar. Dedique tempo à oração. Ao silêncio diante de Deus. À adoração.
Sonhar o sonho de Deus
O quarto chamado é: sonhar o sonho de Deus. “Nunca deixe de sonhar e de realizar o sonho de Deus para você”. Foram as últimas palavras do padre Spoto.
Não o seu sonho egoísta. Mas o sonho de Deus. O sonho que Deus sonha para você.
O chamado. A vocação. O projeto de amor que Deus tem para você.
Procure-o na oração. Na escuta da Palavra. Na direção espiritual. Na comunidade. E quando você o encontrar, realize-o. Passo a passo. Dia após dia.
Mesmo que custe. Mesmo que dê medo. Mesmo que pareça impossível.
Permaneça, não fuja
O quinto chamado é: permanecer. Quando a missão se torna difícil, quando o serviço custa caro, quando o acompanhamento pesa, permaneça.
No casamento: quando chegam as crises, você permanece ou foge? No trabalho: quando se torna pesado, você permanece ou desiste? No serviço: quando custa caro, você permanece ou abandona?
Permanecer é a verdadeira revolução. Em um mundo que foge assim que se torna difícil, permanecer é profecia.
O padre Spoto foi para Biringi. Ele sabia que era perigoso. Mas foi. E quando chegou e era ainda mais perigoso, ele permaneceu. Até o fim. Até o martírio.
Conclusão: “Ele não se virou”
E voltamos à imagem final. Aeroporto de Fiumicino. 4 de agosto de 1964. 23h.
“Dirigiu-se lentamente e relaxado para a saída de embarque, como se fosse uma viagem curta de rotina. Não se virou para a saudação ritual antes de desaparecer além do balcão de controle”.
Não se virou.
Esta é a imagem que devemos levar conosco. Quando Deus chama, seguimos em frente. Não voltamos atrás. Não olhamos para trás. Não nos arrependemos.
Seguimos em frente.
Com fé. Com esperança. Com amor. Mesmo que custe. Mesmo que dê medo. Mesmo que possa ser a última viagem.
O padre Spoto não se virou. E cinco meses depois era mártir. Mas esse seguir em frente sem se virar tornou-se testemunho eterno. Tornou-se santidade. Tornou-se luz para nós.
Sessenta e um anos depois, seus passos continuam. Pequenos passos. Silenciosos. Mas eternos.
E nos chamam. Nos provocam. Nos questionam: E você? Anda assim? Acompanha? É pequeno? Guarda o silêncio? Sonha o sonho de Deus? Permanece quando é difícil?
E quando Deus chama, você segue em frente sem se virar?
Este é o desafio. Este é o chamado. Esta é a santidade possível.
Pequenos passos. Silenciosos. Fiéis. Todos os dias.
Até ao fim. Até à glória.
Beato Francesco Spoto, pequenos passos silenciosos de um servo dos pobres, reza por nós.
Oração final
Beato Francesco, tu que caminhaste com pequenos passos silenciosos, tu que acompanhastes com fidelidade, tu que escolheste a pequenez, tu que guardaste o silêncio, tu que sonhaste o sonho de Deus, tu que não te voltaste.
Ensina-nos a caminhar como tu caminhaste.
Ensina-nos a acompanhar quem está sozinho, a caminhar ao lado, nem à frente nem atrás, a ser uma presença discreta mas fiel.
Ensina-nos a escolher a pequenez, a não procurar o protagonismo, a servir na discrição, a ocupar o último lugar.
Ensina-nos a guardar o silêncio, o silêncio que escuta, o silêncio que acolhe, o silêncio que protege os grandes sentimentos.
Ensina-nos a sonhar o sonho de Deus, a não nos resignarmos à mediocridade, a acreditar que horizontes mais amplos são possíveis, a nunca deixar de ter esperança.
E ensina-nos a não voltar atrás, quando Deus nos chama para missões difíceis, quando o medo nos assalta, quando gostaríamos de voltar atrás.
Tu que agora caminhas na glória, caminha também ao lado dos nossos passos.
Acompanha-nos nas dificuldades diárias. Apoia-nos nas missões difíceis. Encoraja-nos nos momentos de desânimo. Ilumina-nos nas escolhas decisivas.
E quando chegar a nossa hora, quando formos chamados a passar deste mundo para o Pai, esteja conosco.
Ensina-nos a não nos virarmos, a olhar para frente, a caminhar em direção à luz.
Por Cristo, nosso Senhor, que nos disse “Segue-me”, que caminhou conosco até a cruz, que caminha conosco até o fim dos tempos. Amém.
Mons. Vincenzo Bertolone
N.B. Tradução do site DeepL Translate


